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Notícias | SOGESP

Violência

 
O telefone toca, uma, duas vezes. Atende na terceira. Seu coração dispara, sua respiração fica mais rápida e superficial. Do outro lado da linha uma mulher fala, conta uma pequena estória, descreve uma situação. Ele deixa o telefone no gancho bem devagar, não quer acordar sua companheira que há mais de trinta anos ouve o telefone tocar de madrugada. Ela nunca atende, sabe que a ligação é sempre para ele, aquela é sua missão. Ela entende, mas nos últimos anos sofre por vê-lo levantar-se mais lentamente, arrastando um pouco a perna. Ele então escova rapidamente os dentes e penteia os  cabelos agora mais ralos. Mecanicamente, veste o avental branco passadinho, impecável. Vai até a garagem e sai rápido, corre pelas ruas conhecidas e chega à maternidade. Caminha com passos largos, mancando um pouco, sério, concentrado. A experiente enfermeira obstetriz caminha em sua direção um pouco pálida, mas confiante por sua chegada. Seu olhar de respeito reflete a confiança que tem pelo bom profissional. Baixinho, quase no seu ouvido, a enfermeira descreve o caso, difícil, dramático. Ele vai direto para o centro obstétrico, onde escova as mãos vigorosamente, primeiro o antebraço, depois mãos e finalmente escova seus dedos e unhas, fortemente. Usa o álcool iodado sobre os braços e mãos fortemente escovados. Sente-os primeiramente gelados, depois quentes. Com os braços elevados passa pelo pequeno corredor, onde a família o cumprimenta num misto de respeito e um pouco de medo e expectativa. O marido pede para estar presente, ele consente com movimento de cabeça. Não diz uma palavra, está concentrado e muito sério. Veste o avental, a enfermeira junto a ele, já está com a mesa preparada, material envelhecido pelo uso, porém bom, o suficiente.  É o que a maternidade tem no momento.  A paciente olha para ele, com olhos de quem pede ajuda. Está conhecendo o médico naquele momento. Ele retorna o olhar e firme, com a voz baixa e seria, diz que se ela ajudar, tudo vai correr bem. Seu velho amigo anestesista está ao lado, comenta que a analgesia esta boa, paciente um pouco estafada, mas bem. Ele então toca a paciente, sente a cabeça do bebê em uma posição difícil para nascer, pede que a paciente faça um pouco de força para observar se a cabeça desce um pouco mais e gire para nascer. Pede ao anestesista que coloque uma ampola de ocitocina no soro que goteja lentamente. Depois de duas ou três tentativas, com o esforço da paciente , percebe que a cabeça do bebe havia descido, porém não rodara o suficiente. Ele pede que a paciente pare como esforço e diz que ele precisará ajudar o bebê nascer com uma manobra cirúrgica. Ela entende, num misto de confiança e medo. Nesse momento ela fala: " Faça o que for necessário doutor, estou cansada e com medo!”. Ele pede então à enfermeira, novamente com firmeza e muito sério: ”Quero um fórcipe de Kielland!”.  A enfermeira gentilmente oferece os duas partes do fórcipe, duas grandes colheres metálicas. O marido que assiste a tudo segurando a mão de sua mulher, pergunta: " Precisa doutor?". Ele, novamente sério e firme, mostrando olhos duros sobre a mascara responde: " Precisa! Fiquem tranqüilos". O marido então concorda com um movimento de cabeça. Ele então, segura a primeira colher metálica do fórcipe, coloca sua mão direita entre a vagina da mulher e a cabeça do bebê, e desliza suavemente a colher forçando contra sua mão e não contra a cabeça do bebê. Pega a segunda colher e faz a mesma coisa do outro lado. Ajeita as duas colheres que se encaixam, corta a mucosa da vagina do lado direito pra facilitar a saída da cabeça e numa manobra suave  gira um pouco a cabeça do bebê, colocando-a na posição de nascer. Puxa suavemente, a cabeça sai  devagar. Ele retira delicadamente as duas colheres, abaixa a cabeça do bebê até liberar o primeiro ombro e depois a eleva para a saída do outro ombro. O bebê nasce, misturado ao líquido e um pouco de sangue. Chora fortemente, o pediatra então limpa sua boquinha, oxigena fortemente o bebe que chora forte e está bem rosado. Levanta e o coloca sobre o colo da mãe. O marido chora, soluça, a mãe alisa o peito do seu filho e ele se acalma. O parteiro (obstetra) então termina o parto, faz a costura da pequena parte da vagina, conversando com mãe e com pai. Agora já sorri com os olhos e todos na sala o saúdam com olhares de admiração e respeito. Ao sair, os familiares e especialmente a mãe da mulher que deu à luz há pouco, querem agradecer e abraçá-lo. Sério, cumprimenta a todos rapidamente e vai para enfermaria rever outras parturientes que atendera na noite anterior. Leva quase uma hora nesses procedimentos e então volta para o quarto onde já estavam a mãe que há pouco ajudara a dar à luz, com seu filho no colo, amamentando. Pergunta se está bem, coloca levemente sua mão sobre o ventre da mãe e percebe o útero duro, contraído. Sabe então que ela provavelmente não mais sangrará além do normal e sai com um sorriso leve nos lábios. Ninguém percebe, mas só ele sabe que agora seus batimentos estão normais, não mais respira rapidamente. Sente o mesmo bem-estar que sentiu ao fazer seu primeiro parto. Vai então pra casa. Ao chegar, sua velha companheira já está com a mesa posta, café, leite, frutas e o inseparável jornal do dia. Conversam suas conversas do dia a dia e sobre os filhos. Tudo está bem. Ao folhear o jornal, como sempre fez a vida toda, estaca numa página do jornal. Fica olhando em silêncio. Está sério, seu sorriso desaparece, sua testa se enruga. Numa reportagem de meia página está lá o título : " Os médicos praticam violência obstétrica! ". O artigo afirma que médicos pedem que as mulheres façam força para ajudar no parto, pedem para acelerar o parto com ocitocina, usam cortes em suas vaginas, usam ferros para retirarem os bebês. Em suma, praticam violências contra as mulheres que vão para o parto. Levanta-se, sempre sério e agora muito triste. Sai, o sol está nascendo, o dia de sábado está lindo. Pensa nos milhares de partos que já fizera em quase quarenta anos de obstetrícia e fica pensando se em alguma única vez tenha praticado o que julgasse violência. Mergulha nesses pensamentos, permanece de pé, sério e muito triste. É acordado dessa reflexão pelo toque delicado de uma mão em seu ombro. É sua mulher que trás o telefone. É a maternidade que novamente o está chamando . Pára um pouco, pensa! Suas pernas cansadas balançam como numa velha dança de salão, como se estivessem em dúvida sobre ir e não ir. Aquilo demora alguns segundos. Olha diretamente nos olhos da companheira que ama e em seguida percorre em passos firmes a distância que leva a seu carro. Solitário, sai de casa para mais um parto. Será um parto violento?

 

Jarbas Magalhaes

Presidente da SOGESP
Biênio 2014-2015